7.9.18

Uma conversa, um poema

eu você
você eu
não e,
talvez é

teus olhos
me vêem
como eu
me vejo

e como
às vezes
não vejo
mais

mas gostaria
de me
ver
pelos teus olhos

é tarde
há palavras
que precisam
sair

para, talvez
encontrar um peito
que saiba
como é

não saber

coisas que
não temos
certeza se
deviam ser ditas

mas que
precisavam
ser ouvidas

compartilhadas
numa procura
por não sei o quê

talvez eu
talvez você
eu você
você eu
- helena 

23.8.18

Sentimentos sem nome e Grace and Frankie

Esse texto contém spoilers do último episódio da primeira temporada de Grace and Frankie.

Em 2016 eu assisti Her, até hoje eu não tenho total certeza do que senti com esse filme. Uma das passagens que de vez em quando lembro é do Theodore dizendo "Às vezes acho que já senti tudo que eu deveria sentir. e que de agora em diante não sentirei mais nada novo. Somente versões menores do que eu já senti", não lembro desse trecho por entender ou concordar, embora saiba que há sensações específicas que aconteceram e não se repetirão, de forma mais dramática: que eu perdi para sempre.

Lembro desse trecho porque eu quis fazer uma lista com todas as sensações e sentimentos que eu ainda não tinha experimentando e pudesse pensar (tão pretensiosa e empolgada). Essa lista ficou salva nos rascunhos desse blog, desde então, parada no nono item. Eu nunca a excluo, nunca a levo em frente.

Hoje eu lembrei dela, porque acabei a primeira temporada de Grace and Frankie e não sabia dar nome para o que eu estava sentido. E percebi como há sentimentos que eu nem sei nomear, que eu nunca senti, e como eu andei experimentando eles no último ano e de 2016 até aqui.

O 13º e último episódio acaba com Sol chegando em casa encarando que precisa contar a Robert o que fez, enquanto Robert lê os votos que escreveu em voz alta, marcando a primeira vez que eu gostei mais de Robert do que de Sol (que eu lembre.) ao som de música triste e linda. Sol beijou Frankie e traiu Robert, depois de trair Frankie com Robert por tanto tempo. Grace se tornou a personagem mais sensata da série.

Pela primeira vez eu não peguei ranço de um personagem no momento em que ele trai* (Hamilton me iniciou nisso), e enquanto Sol atravessa a frente da casa eu fiquei pensando em como eu tinha ódios e amores tão bem definidos quando tudo começou naquele restaurante, e agora estava tudo muito mais complexo do que isso. É difícil odiar alguém dessa série.
*pensando bem nem daria para ter começado a série?

Enquanto Robert declarava seu amor e Sol fazia a cara triste que ele faz tão bem, e Frankie abraçava Grace com um cobertor em uma caminhada na praia, eu não sabia o que eu estava sentindo. Eu queria um abraço acho, um abraço significativo de alguém que compartilhasse aquilo.  Mas eu não sabia se estava triste, certamente não estava feliz.

E não havia palavras em minha mente para descrever aquilo e entender. E eu precisava conseguir nomear para conseguir entender. e eu queria muito entender o que era aquela sensação no peito, o que eu estava pensando sobre tudo, mas não consegui.A linguagem ainda não é o suficiente para os sentimentos em mim.


faltam fotos de boa qualidade de Grace e Frankie na praia
***

A lista de sensações que nunca senti que estava salva nesse blog tinha os seguintes nove itens:

Conhecer amigos virtuais
Viajar de verdade
Explorar um lugar com alguém especial
Amar profundamente alguém, romanticamente falando 
Sensação de andar de avião
De cantar com uma multidão 
Sentir que está vivendo a vida que sempre quis
Que pode comprar tudo o que quiser 
O gosto da coragem

Fico feliz de perceber que os 4 primeiros podem ser riscados, dependendo como considerarmos alguns. E estou pensando se posso ou não riscar outros. 

Agora eu posso libertá-la dos rascunhos para sempre!


5.6.18

Nosce te ipsum e a busca pelo autoconhecimento

09-05-2018

Olá!

Três anos atrás, eu sentei pela primeira vez em uma sala para fazer terapia. Eventualmente, minha então psicóloga me disse que eu estava ali em busca de me conhecer e isso era muito bom. Três semanas atrás, meu terapeuta disse que eu (e todas as pessoas) preciso buscar me autoconhecer profunda e integralmente. Em paralelo a isso, como não poderia deixar de ser a Dani e eu temos conversado e pensado bastante a respeito.

Nosce te ipsum, expressão em latim para "Conhece-te a ti mesmo", como dizia Sócrates, foi uma das metas de 2018 dela (Dani), e me apaixonei. Agora tenho duas expressões favoritas em latim (a outra é Ic et nunc, "Aqui e agora", se você estiver se perguntado). Coincidência ou não, as duas falam de coisas que tenho buscado através dos anos. Viver o aqui e agora; me conhecer. Também através dos anos minha ansiedade me faz viver cada vez mais no futuro, e as tantas nuances de mim mesma que vou descobrindo nos novos momentos da minha vida me fazem ficar mais confusa quanto a tão temida pergunta "quem sou eu?", e todas as outras seguindo essa linha. 

E nessa busca (nas poucas horas vagas) sobre o autoconhecimento, eu acabei percebendo que não sei o quê ou como fazer para me autoconhecer. Como a gente se conhece? Como eu vou conseguir descobrir, seja lá o que for que eu precise entender, para ME entender? Quem ensina isso para a gente? Ou melhor, por que ninguém ensina isso para a gente?

05-06-2018

Eu esperei e tentei através dos quase trinta dias entre os primeiros parágrafos e esse para descobrir formas que me levassem mais perto do meu conhecimento sobre mim mesma para contar aqui. Alguns dias eu tentei perguntas e aplicativos, outros somente percebi coisas em mim durante acontecimentos cotidianos e achei que aquele era o meio de fazer. 

Agora, percebo, que esse post nunca foi sobre ter uma conclusão de como me conhecer, era apenas um passo nesse caminho que ainda estou a descobrir, apenas uma forma de dizer "ok, posso 'dizer em voz alta', eu realmente quero tentar isso" e ver onde posso chegar.

Acho que, me autoconhecer como mulher, como pessoa, entender os fatores que me trouxeram a esse momento em mim, meus sentimentos, meu meio familiar e social, e olhar com carinho e gentileza para o lugar de onde vim, aquele em que estou, para minhas feridas: abertas, cicatrizadas, ou sangrentas é extremamente importante para entender o meu caminho na minha vida; em termos espirituais, entender o meu caminho no universo, na minha vivência terrena e além dela.

Gosto de pensar que ainda estou seguindo a estrada que aquela Helena de três anos atrás começou. E que cada vez mais estou mais perto de chegar onde eu planejei chegar, embora, às vezes, tudo pareça muito louco.
 - Lena

28.12.17

Tartarugas até lá embaixo


  "Às vezes você lê um livro, às vezes ele lê você." - O diário de Anne Frank

Foram muitos anos sem sentir isso — e na verdade, duvidando —, mas aconteceu esse final de semana. As crises pela realidade se misturaram com as crises pela ficção, o que era Aza com o que era Helena. Tantos anos depois de Will e Will, e Green ainda me encontra quando tudo faz sentido. Quando precisava encontrar. E isso acabou com a véspera de Natal e o Natal em si. Nunca tantas crises em tão pouco tempo, ainda me cansa relembrar. O entendimento foi tão grande que talvez tudo esteja pior do que eu pensei, começando pela minha cabeça. Mas no dia seguinte, não tinha mais certeza de nada, porque não podia ser tudo tão igual, não é? Só que Aza conheceria a sensação de não confiar no próprio cérebro. 

Às vezes tudo acontece, quando a gente nem lembrava mais que poderia acontecer. E, dolorosamente, se percebe que não é bom.

12.11.17

TAG Meus hábitos de escrita


Olá, pessoas!

Daninha, do ConversaCult, me marcou para responder a TAG Meus Hábitos de Escrita, e cá estou eu vivendo a tentativa. A TAG foi feita pela Pam Gonçalves aqui no BR, e é baseada na TAG gringa criada pela Kristen Martin. 

ONDE EU ESCREVO?

Hoje em dia isso é relativo. Já escrevi em vários lugares, meus últimos dois contos e inícios de alguma coisa (só Hygge veio a público deles) eu escrevi no trabalho (na hora do almoço) e no meu quarto. Nunca escrevi em lugares públicos e de algum forma ou outra tudo sempre acaba em casa. Antes de começar a trabalhar eu só conseguia escrever no meu computador de mesa aqui, até hoje ão consigo perder a sensação de que alguma coisa está errada quando escrevo em outro lugar, mesmo que às vezes seja necessário. Mas também, .+desde de que estou com meu notebook não consegui de volta a sensação de que tudo está certo, como tinha antes #dramática

COMO VOCÊ SE ISOLA DO RESTO DO MUNDO ENQUANTO ESTÁ ESCREVENDO?

Ficando sozinha. Não gosto de ficar sendo interrompida quando pego a vibe daquela história e estou empolgada escrevendo. De uns tempos para cá, tem ficado mais difícil me isolar por motivos de celular do lado o tempo todo, mas eu tento, desligando o wifi, escondendo o celular e avisando meu namorado que vou escrever, o que significa, tentar dar uma sumida. Internet é uma grande tentação e me influencia a enrolar muito.

COMO VOCÊ REVISA O QUE ESCREVEU NO DIA ANTERIOR?

Não reviso, não gosto de voltar. Quando não me lembro bem onde parei ou da onde preciso começar para seguir, leio os últimos parágrafos da história. Quando estou há alguns dias sem escrever tento ler tudo que vai me ajudar a lembrar o que eu estava fazendo. Enquanto faço essas leituras tento não revisar nem modificar nada, é mais difícil quando estou há dias afastada e em histórias curtas que parecem fácil mexer aqui e ali. Mas não é uma boa ideia, porque acabo não indo a lugar nenhum e adiantando o processo de edição, sem nem ter concluído o de escrever.

*Gosto de escrever todo dia quando começo, dias afastadas me fazem mudar o olhar ou os sentimentos com pontos da história e isto não costuma ser bom, porque acabo abandonando (quando estou no começo) ou empacada na história. 

QUAL A SUA PRIMEIRA ESCOLHA DE MÚSICA QUANDO NÃO ESTÁ SE SENTINDO INSPIRADA?

Quando estou escrevendo histórias não costumo escrever com música, me atrapalha a pensar. E a música também não é um recurso que busco muito quando estou sem inspiração, não é uma constante. Com alguns projetos eu tenho músicas que de alguma forma me inspiraram, nas letras ou nas melodias, e houveram épocas em que escrevia com som, mas eram músicas que eu apenas gostava ou não me atrapalhavam a pensar, não que eram daquela história ou fontes de inspiração.

O QUE VOCÊ SEMPRE FAZ QUANDO ESTÁ LUTANDO CONTRA O BLOQUEIO DE ESCRITA?

Roubando as palavras da Dana "sofrer" e me sentir uma farsa.

Quando recobro o pensamento racional eu procuro ler os últimos parágrafos ou capítulos que escrevi (em histórias curtas, isso não funciona tão bem, e se você acompanha meu trabalho sabe que tudo escrito nos últimos anos foram histórias curtas.........); Busco opiniões, conversando sobre a história, tentando descobrir onde está o motivo do bloqueio. Me lembro que não preciso pensar muito na primeira etapa, apenas escrever. E tento pensar no que precisa vir a seguir na sequência de acontecimentos da trama. Qual a próxima cena? Como vou chegar a ela? Ou só preciso ir direto para ela sem preâmbulos? Às vezes me bloqueio pensando que não sei como continuar uma cena, sem perceber que não tem nada mais pra fazer ali, não preciso continuá-la, e a próxima cena não precisa ter um gancho nesta atual. Só preciso ir. Isso faz sentido?

Por exemplo: Protagonista está na festa com a crush. O que precisava acontecer nesta festa já aconteceu e são 22 horas da noite, mas elas não irão embora ainda. E o próximo passo que a história precisa dar é o almoço em família do dia seguinte. Fico bloqueada tentando "acabar" a cena da festa e levar minha protagonista para o almoço de uma forma sequencial, quando eu só preciso começar outro capitulo no dia seguinte na hora do almoço. Porque não há nada mais entre as 22 horas do sábado e às 11 horas do domingo que precise ser contado. Ou detalhado, por exemplo, o fato dela ter ido dormir muito tarde pode ser mostrado pelas olheiras e os bocejos durante o almoço, não preciso acompanhar a personagem indo para cama de madrugada tomando cuidado para não acordar ninguém.

QUAIS FERRAMENTAS VOCÊ USA ENQUANTO ESCREVE?

Word ou o Google Drive para escrever, o próprio Google para pesquisas, papel e caneta para me orientar porque as vezes preciso rabiscar as coisas com minhas próprias mãos para entender. E costumo conversar sozinha fazendo isso.

Em algumas histórias uso tudo isso, em outras só um ou outro. Depende muito. Nunca escrevi nada completo a mão, às vezes começo por falta de computador e porque não me dou muito bem no celular — embora use o celular na falta de papel e caneta, ou por que eu nunca sei o que vou querer.

Ainda estranho a aparência do Docs do Google quando estou escrevendo, e isso me atrapalha. Faz eu sentir que o que está sendo escrito não está bom, ou me impede de continuar, se for ali. Sou doida assim.

QUAL A ÚNICA COISA QUE VOCÊ NÃO PODE VIVER SEM DURANTE A ESCRITA?

Eu acho que não existe algo que não dê para viver sem enquanto escrevo. Só o próprio arquivo, mas nem é em todo o caso.

Posso escrever sem internet para alguma pesquisa, na verdade, o ideal seria não fazer pesquisas porque eu sei que isso só me faz demorar;
Posso escrever sem papel e caneta por perto;
Posso ficar até sem comida, neste momento mesmo, estou com sede porque estou sentada aqui há algum tempo, mas ainda escrevo;
E até posso ficar sem o próprio arquivo, se eu lembrar bem onde parei, ou não empacar sem alguma informação antiga.

Isto tudo enquanto estou escrevendo, não editando. Editando eu vou precisar das 30 versões do arquivo que criei, de papel e caneta, da minha lista de passos (AMÉM TO DO LIST), etc etc.

COMO VOCÊ SE ABASTECE/SE ALIMENTA DURANTE UMA SESSÃO DE ESCRITA?

Muita água, porque meu Deus eu sinto muita sede. E muita comida, porque meu Deus eu como muito. Não tenho uma alimentação especifica para as sessões de escrita, algumas vezes posso até não me alimentar, se for uma sessão pequena. E quando me alimento depende do que tenho a disposição, da hora, de vontades sem sentido.

COMO VOCÊ SABE QUANDO TERMINOU DE ESCREVER?

No primeiro rascunho: quando eu não acho que precise dizer mais, e a tentativa é só uma enrolação. Algumas vezes sei de antemão como a história acaba, algumas não, e algumas acho que sei. Mas no fim, sabendo ou não que seria aquela cena a final, é só o sentimento e/ou o pensamento racional de que não há mais o que ser dito que faça diferença. 

Na edição é quase a mesma coisa, e quando concluo a última leitura de revisão (depois de ter mudado tudo que precisava, e só estou vendo se tá mesmo certo) e não aguento mais mexer naquela história.

Se for a cada dia, como a Dana mencionou, é quando acabo o que tinha "planejado" ou queria muito escrever aquele dia, e quando o cansaço ou a falta de inspiração me vencer. O que acontecer primeiro. Ah, ou quando algo externo me atrapalha ou eu me deixo distrair.

***

É isso, espero que tenham gostado e meu sono não tenha atrapalhado (muito) a qualidade, vou deixar em aberto pra quem quiser responder, e marcarei especificamente minhas amigas da Tertúlia (Giu, Dani, Gih, Tati e Isa, se ela voltar a escrever) e o Felipe do Não Sei Lidar

31.8.17

Um poema estranho

Dói tudo.

Dentro e fora.
Fora e dentro.

As pernas
de tanto
andar
pra lugar
nenhum.

As costas
às vezes 
o mundo
pesa demais.

Os braços
de nadar
pra morrer
na praia.

Os pulmões
por tentar
respirar
depois dos socos
na barriga
que a sua indiferença
me dá.

E os olhos
em ver
seu desamor.

E o corpo todo
toda vez
que me toca.

E toda vez
Que não toca.

- um poema estranho que achei em meus rascunhos

30.7.17

Hygge, um conto

Oi, mundo!

Dia 19 desse mês, fez um ano que eu publiquei meu primeiro conto, Quarto minguante lá no Wattpad, vieram outros depois desse, nenhum aqui no Luft. Mas hoje nessa manhã de domingo será o dia em que tudo mudará! SIM, TEMOS CONTO NOVO E INÉDITO!!!

Para um blog de nome sem tradução, um conto de título também sem tradução: Hygge. Lê-se "hoo-ga", é uma palavra do dinamarquês, segundo o dicionário do bem, que significa entre outras coisas, "ter prazer na presença de coisas leves e suaves, paz". E pareceu o único título possível para minha história que no final é só sobre a paz e o prazer nas coisas simples e pequenas de uma manhã de domingo tranquila. Espero que vocês também se sinta em paz lendo!

Sem mais delongas...



Os raios de sol fazem um caminho da janela até a mesa de madeira, refletindo no vidro da tigela com uma dúzia de laranjas, ainda em processo de amadurecimento, que mamãe comprou ontem na feira. O centro de mesa com crochê embaixo da tigela está amarrotado — eu o estico. Encho um copo com água da torneira e sento na ponta da mesa para não interromper o caminho da luz. 
Ouço o vizinho falar com seu cachorro; são 07:56 da manhã, eles devem estar prestes a sair para correr. Bebo a água enquanto acompanho com os dedos os bordados de rosas amarelas e folhagens verdes no centro de mesa. Consigo ouvir o vizinho e o cachorro descerem as escadas e fico na espera da batida alta do portão de ferro ao ser fechado.
Completo a água no copo mais uma vez e abro a janela para regar o cacto e as suculentas no peitoril. Tomo cuidado para não colocar água demais nos três pequenos vasos coloridos. Amarelo para Órion, o cacto, rosa para Alnitaka e roxo para Mintaka. Alnilan, a terceira das suculentas e a segunda das Marias na constelação, morreu há dois meses; seu vaso era turquesa. Agora ele fica escondido na área de serviço, retirado de sua função.
Quando acabo, deixo a janela aberta e a brisa fria faz com que os pelos dos meus braços se arrepiem. Vou atrás de algo para esquentar e encontro o cardigã verde escuro de mamãe esquecido sobre o sofá. Ele sempre parece mais macio e quente do que qualquer um dos meus. O tecido pesado faz um contraste engraçado com minhas calças e a blusa fina do meu pijama listrado ao colocá-lo. Com a pouca luz na sala a essa hora, os sofás parecem especialmente convidativos, mas meu estômago ronca e tenho de voltar para cozinha. Assim que ligo o fogo para fazer chocolate quente ouço a porta do quarto se abrindo e mamãe caminhando até o banheiro. Ela conversa animada com nossa gata, Geórgia, sua voz ecoa pelo corredor.
Mamãe entra na cozinha alguns minutos depois, de moletom azul marinho combinando e cabelos presos. Ela beija minha testa ao me dar bom dia, Geórgia vem logo atrás dela e se esfrega em minhas pernas; eu acaricio o pelo malhado do lado do seu corpo com o pé, tomando cuidado para não me desequilibrar e nem parar de mexer o leite. Mas não consigo manter o equilíbrio por muito tempo e desisto.
— O que você está fazendo, filha?
— Chocolate quente — digo e ela emite um som de satisfação.
— O que acha de biscoitos para acompanhar? E talvez pão de queijo? — Ergue as sobrancelhas para mim. Eu sorrio. Mesmo que pão com manteiga tenha todo o charme do mundo, eu não reclamo de variar um pouquinho. E hoje é domingo, isso pede refeições diferentes.
Mamãe diz que volta em um minuto e sai pela porta em busca da nossa comida, e Geórgia se cansa dos meus pés e sobe em uma das cadeiras da cozinha. Toda a companhia que tenho. Isso me deixa em paz. Quando mamãe volta, os chocolates quentes já não estão mais tão quentes, estão do jeito que gostamos — mas que ela nunca consegue esperar ficar quando está por perto e sempre acaba com a língua queimada. Ela coloca o saco de biscoitos em cima da mesa e prova do seu chocolate. Diz que está delicioso e me agradece por tê-la esperado. Balanço a cabeça como se não fosse nada.
O pão de queijo tinha acabado, segundo mamãe, a próxima fornada ainda iria demorar uns dez minutos para sair, a padaria estava movimentada e ela achou melhor não esperar. Mas eu não me importo, ter biscoitos no café da manhã sempre me faz acreditar que aquele será um bom dia. A massa crocante por fora e macia por dentro, ainda quente, o gosto salgado que fica em minha boca, e que vai embora depois com o chocolate quente, eu adoro cada detalhe. Mamãe molha seus biscoitos na caneca de leite antes de comê-los — houve uma época em que achava isso um tanto nojento, mas hoje não. Acabamos devorando o saco todo de biscoitos, como duas crianças, enquanto conversamos.
Mamãe fala de um vestido que viu na vitrine da sua loja preferida — caro demais, vamos esperar por uma liquidação. Falo sobre o próximo lançamento daquela poeta que gostamos — não me lembro mais a data, mas mamãe acha que é em novembro. Pergunto sobre a viagem que vovó fará para o nordeste — daqui a um mês, ela ficará cinco dias fora e quer comprar um óculos de sol novo. Ela pergunta se sairei com meu pai à tarde — esse final de semana não combinamos nada—, ou com Juliana — também não combinamos nada. Eu pergunto sobre o homem que ela saiu na sexta — ela não respondeu a mensagem que ele mandou ontem. Ela pergunta se eu achei alguém naquele aplicativo — É Tinder, mãe, e não, eu desinstalei.
Nos atualizamos da vida uma da outra. Não há pressa, nem barulheira. Ninguém precisa chegar ao serviço em 20 minutos ou conseguir estar em dois lugares ao mesmo tempo ou revisar uma matéria para entregar até o almoço. Domingos são sagrados para ficar em paz. Não ouvimos músicas, nem no rádio, nem em nenhum aplicativo de streaming. A música errada pode simplesmente cortar o silêncio da forma incorreta e quebrar a atmosfera. O mais perto de música que chegamos é quando mamãe, e algumas vezes eu, cantarolamos enquanto lavamos a louça ou preparamos algo para o almoço. E não lemos notícias.
Simplesmente nos desligamos de tudo, e nos concentramos na nossa paz aqui, nesse tempo e espaço, em casa uma com a outra. Manhãs de domingos são sagradas para descanso. 

***

Obrigada a Gih, a tati e a Dani que ajudaram a melhorar e deixar Hygge como está agora. Vocês são ótimas ♥

Se você gostou de Hygge, você pode me ajudar compartilhando esse post ou comentando o que achou!

Tchauzinho!